Um corte na palma da mão, nos dedos ou no dorso da mão que deixa o dedo “caído” ou incapaz de dobrar sozinho é, até prova em contrário, uma lesão de tendão — e essa é uma das poucas urgências reais dentro da cirurgia da mão. O motivo é simples: tendão cortado não cicatriza sozinho como pele, e quanto mais tempo passa entre a lesão e o reparo, mais o tendão se retrai, mais a bainha ao redor cicatriza de forma desorganizada, e pior tende a ser o resultado funcional final.
Os tendões flexores ficam na palma da mão e no lado da frente dos dedos, dentro de bainhas apertadas que garantem o deslizamento suave durante o movimento de fechar a mão. Os extensores ficam no dorso, mais superficiais, e por isso mais fáceis de serem cortados em acidentes domésticos, brigas, ou quedas com a mão sobre vidro ou objeto cortante.
Como saber se o tendão foi atingido
Um corte superficial que sangra bastante mas não compromete o movimento provavelmente não pegou o tendão. O sinal de alarme é a perda de função: se o paciente não consegue dobrar a última articulação do dedo sozinho, ou se o dedo fica “caído” numa posição estranha em repouso quando comparado aos outros, a suspeita de lesão tendínea é alta. Vale lembrar que mesmo um tendão parcialmente cortado — não seccionado por completo — pode ainda permitir algum movimento, só que mais fraco, e isso engana bastante gente que decide esperar para ver.
Outro detalhe que peço sempre no exame: testar cada tendão isoladamente, dedo por dedo, bloqueando os vizinhos. Muita gente machuca mais de um tendão no mesmo corte e não percebe, porque os tendões vizinhos compensam o movimento perdido.
A diferença entre reparo precoce e tardio
Reparar um tendão flexor nos primeiros dias depois do corte, numa janela idealmente de até duas semanas, dá o melhor resultado técnico e funcional. Depois disso, o coto proximal do tendão vai se retraindo dentro da bainha, a bainha cicatriza e estreita, e às vezes é preciso um enxerto de tendão ou uma reconstrução em dois estágios em vez de uma sutura direta simples. Isso não quer dizer que lesão antiga não tem solução — tem, só que fica mais complexa, com mais cirurgias e reabilitação mais longa.
Nos tendões extensores o prazo costuma ser um pouco mais flexível, porque eles não ficam dentro de bainhas tão apertadas quanto os flexores na região dos dedos, mas isso não é motivo para adiar a avaliação.
Reabilitação: a parte que decide o resultado
A cirurgia é só metade da história. O protocolo de reabilitação depois de reparo de tendão flexor é talvez o ponto mais subestimado pelo paciente — e o que mais separa um resultado bom de um resultado ruim. Existe uma tensão real entre dois riscos opostos: mover cedo demais pode romper a sutura, e imobilizar demais faz o tendão aderir à bainha e perder o deslizamento, resultando num dedo rígido mesmo com a sutura intacta. Por isso os protocolos modernos usam mobilização precoce controlada, com órtese específica e fisioterapia especializada nas primeiras semanas — não é tala e esquece, é acompanhamento de perto.
Pacientes que não seguem o protocolo de fisioterapia, mesmo depois de uma cirurgia tecnicamente bem feita, frequentemente terminam com aderências e perda de amplitude de movimento. Já vi caso de reparo perfeito no centro cirúrgico perder função só porque o paciente não voltou às sessões de mão fechada e aberta orientadas.
Perguntas frequentes
Cortei a mão, sangrou bastante mas consigo mexer o dedo. Preciso me preocupar? Sim, vale avaliação. Corte que sangra pode ou não ter atingido o tendão, e um tendão parcialmente lesado às vezes ainda permite movimento, só que mais fraco — e pode romper completamente dias depois se não for tratado.
Quanto tempo depois do corte ainda dá para operar o tendão? O ideal é nos primeiros dias, mas reparos até duas ou três semanas ainda costumam ter bom resultado técnico. Depois disso a reconstrução fica mais complexa, com técnicas de enxerto em vez de sutura direta.
Vou recuperar o movimento normal do dedo? Depende do tendão envolvido, da gravidade do corte, do tempo até o reparo e, de forma decisiva, da adesão à fisioterapia no pós-operatório. É a variável que mais pesa no resultado final.
Preciso ficar com o dedo imobilizado depois da cirurgia? Sim, mas com um protocolo específico de mobilização controlada, não com imobilização total — o excesso de imobilização é uma das causas de dedo rígido depois do reparo.
Se você teve um corte na mão ou nos dedos recentemente e notou dificuldade para dobrar ou esticar algum dedo, procure avaliação o quanto antes — os primeiros dias fazem diferença real no resultado. Atendo esse tipo de urgência em Recife, e o ideal é não deixar para depois.