A fratura do escafoide é a fratura mais comum entre os oito ossinhos do carpo e costuma acontecer numa queda com a mão espalmada no chão para amortecer o impacto. O problema é que, diferente de uma fratura de punho mais óbvia, essa muitas vezes não incha muito, dói de forma discreta e pode nem aparecer no primeiro raio-x — por isso um número relevante de pacientes trata como entorse, usa uma tala por conta própria, melhora um pouco e só descobre a fratura meses depois, quando a dor persiste.
Como costuma acontecer
O mecanismo clássico é queda sobre a mão em extensão — de bicicleta, de patinete, jogando bola, tropeçando na rua. É comum em jovens ativos e também em pacientes mais velhos após queda da própria altura. O escafoide fica numa posição mecânica que recebe boa parte do impacto quando a mão encosta no chão com o punho estendido, o que explica a frequência dessa fratura em comparação aos outros ossos do carpo.
Por que é fácil confundir com entorse
Entorse de punho e fratura de escafoide sem desvio se parecem muito no começo: dor ao movimento, inchaço leve, dificuldade de apoiar a mão. A diferença que procuro no exame físico é a dor localizada na tabaqueira anatômica, aquela depressão triangular na base do polegar, e dor à compressão axial do polegar. Quando esse sinal está presente depois de uma queda com a mão espalmada, trato como fratura até provar o contrário, mesmo com raio-x normal.
O raio-x pode dar normal e ainda assim ter fratura
Isso acontece com frequência suficiente para mudar a conduta: nas primeiras semanas, uma fratura sem desvio pode não aparecer nas radiografias iniciais. Quando a suspeita clínica é forte e o raio-x não mostra nada, o caminho é imobilizar mesmo assim e repetir a imagem em dez a quatorze dias, quando a reabsorção óssea ao redor da linha de fratura já costuma tornar o traço visível, ou partir direto para tomografia ou ressonância se houver disponibilidade e pressão de tempo, como em atleta que precisa de definição rápida.
Tratamento conservador ou cirurgia
A decisão depende principalmente de dois fatores: localização da fratura e desvio. Fraturas no terço distal, sem desvio, respondem bem à imobilização gessada por 8 a 12 semanas. Já fraturas no polo proximal do escafoide são mais delicadas porque essa região recebe menos irrigação sanguínea — o suprimento vascular do osso entra predominantemente pela porção distal e vai diminuindo à medida que sobe — e por isso tem maior risco de não consolidar ou de necrose óssea. Nesses casos, e em fraturas com qualquer desvio, opero cedo: parafuso percutâneo comprimindo os fragmentos costuma reduzir bastante o tempo de imobilização e diminuir o risco de pseudoartrose em relação a esperar o tratamento conservador falhar.
Tempo de consolidação e volta às atividades
O escafoide consolida mais devagar que a maioria dos ossos do corpo. Na prática, o prazo gira em torno de 8 a 12 semanas, podendo passar disso em fraturas proximais ou em fumantes, já que o tabagismo atrapalha bastante a formação óssea. Após a retirada da imobilização ou do parafuso, a fisioterapia ajuda a recuperar a amplitude do punho, que costuma ficar enrijecido depois de semanas parado.
O que acontece se a fratura passa despercebida
Fratura que não consolida até por volta do terceiro mês vira pseudoartrose. E o escafoide não consolidado muda a mecânica do carpo aos poucos, levando a um padrão de artrose progressiva conhecido como SNAC wrist — já vi punho de paciente jovem chegando nesse estágio simplesmente porque a queda inicial foi tratada como entorse e nunca foi investigada direito. Por isso minha recomendação é direta: dor persistente na base do polegar depois de uma queda com a mão espalmada merece avaliação, mesmo que o inchaço pareça pequeno.
Perguntas frequentes
Toda queda com a mão espalmada precisa de raio-x? Se há dor persistente, principalmente na base do polegar, sim. Dor leve que passa em poucos dias e não limita movimento costuma não precisar, mas na dúvida vale examinar.
Posso ter fratura mesmo com o raio-x normal? Pode, sim, principalmente nas primeiras semanas. Se a dor na tabaqueira anatômica persistir, o correto é imobilizar e repetir a imagem ou investigar com tomografia.
Quanto tempo fico de gesso? Em fraturas sem desvio, entre 8 e 12 semanas. Esse prazo pode ser reduzido com cirurgia em casos selecionados, ou se estender em fraturas do polo proximal.
Fratura de escafoide sempre precisa de cirurgia? Não. Fraturas estáveis, sem desvio, na porção distal do osso, costumam consolidar bem só com imobilização. A cirurgia entra quando há desvio, fratura no polo proximal ou necessidade de retorno mais rápido à atividade.
Se você teve uma queda recente com a mão espalmada e a dor no punho não passou, vale a pena examinar antes de assumir que foi só uma entorse — atendo esse tipo de caso com frequência aqui em Recife, e quanto antes o escafoide é avaliado, mais simples costuma ser o tratamento.
