Dor na borda do punho, do lado do dedo mindinho, que piora ao girar a mão para abrir uma porta, torcer uma toalha ou apoiar o peso do corpo no chão — esse é o quadro clássico da lesão do TFCC, o complexo fibrocartilaginoso triangular. É a estrutura que estabiliza a articulação entre o rádio e a ulna e absorve carga na borda ulnar do punho, e é também uma das causas mais subdiagnosticadas de dor crônica nessa região, porque boa parte dos pacientes trata como “entorse que não passa” e só procura avaliação especializada meses depois.
O que é o TFCC e por que ele dói
O TFCC é um conjunto de ligamentos e uma cartilagem em formato de disco que fica entre a cabeça da ulna e os ossos do carpo, do lado do dedo mindinho. Ele faz duas funções ao mesmo tempo: estabiliza a articulação radioulnar distal, que é o que permite girar o antebraço para pronar e supinar a mão, e amortece parte da carga que passa pelo punho quando a mão apoia peso. Quando essa estrutura rasga, a articulação perde parte dessa estabilidade e a dor aparece exatamente nos movimentos que exigem rotação ou apoio de carga.
Como a lesão acontece
Existem dois caminhos bem diferentes para chegar ao mesmo diagnóstico. O primeiro é o trauma: uma queda com a mão espalmada e o punho em extensão e rotação, comum em quem cai de bicicleta, pratica esportes de raquete ou ginástica, ou simplesmente escorrega e tenta se apoiar no chão. O segundo é degenerativo, sem trauma único identificável — desgaste que se acumula ao longo dos anos, mais comum depois dos quarenta, e que costuma estar associado a uma ulna discretamente mais longa que o rádio, a chamada variância ulnar positiva, que aumenta a carga mecânica justamente sobre o TFCC.
Sintomas que ajudam a diferenciar de outras causas de dor ulnar
A dor costuma piorar ao girar a maçaneta de uma porta, torcer uma toalha, ou fazer força apoiando as mãos para levantar do sofá. Alguns pacientes sentem um estalido ou uma sensação de “click” durante o movimento, e às vezes relatam fraqueza ou instabilidade ao segurar objetos com firmeza. É importante diferenciar de duas outras causas comuns de dor no mesmo lado do punho: a compressão do nervo ulnar no canal de Guyon, que causa dormência e formigamento no dedo mindinho e no anelar em vez de dor mecânica, e a tendinite do extensor ulnar do carpo, que dói mais no dorso do punho e piora com extensão associada a desvio ulnar, não necessariamente com rotação.
Como se chega ao diagnóstico
O exame físico já ajuda bastante: pressionar a região entre a cabeça da ulna e o tendão flexor ulnar do carpo — a chamada fóvea ulnar — reproduz a dor na maioria dos casos de lesão do TFCC, e esse sinal tem boa sensibilidade para direcionar a investigação. Peço radiografia para avaliar a variância ulnar, porque isso muda a conduta cirúrgica se o caso chegar lá. A ressonância magnética, de preferência com contraste intra-articular, é o exame de imagem mais útil, mas não é perfeita — em alguns pacientes com quadro clínico muito sugestivo, a ressonância vem normal e a artroscopia acaba confirmando a lesão. Por isso a artroscopia ainda é considerada o padrão-ouro: além de fechar o diagnóstico, já permite tratar na mesma cirurgia.
Tratamento
A maioria dos casos começa com tratamento conservador: imobilização por um período curto, anti-inflamatório, fisioterapia para fortalecer a musculatura estabilizadora do punho e modificação temporária da atividade que reproduz a dor. Isso funciona particularmente bem nas lesões traumáticas periféricas, porque essa região do TFCC tem boa vascularização e cicatriza com relativa facilidade. Já as lesões centrais, numa área pobre em vasos sanguíneos, cicatrizam mal sozinhas e tendem a precisar de tratamento cirúrgico quando os sintomas persistem.
Quando a cirurgia entra, a escolha depende do tipo de lesão. Lesões periféricas em paciente jovem e ativo costumam ser reparadas por via artroscópica, suturando o TFCC de volta à sua inserção. Lesões centrais degenerativas, sem boa chance de cicatrização, geralmente são tratadas com desbridamento artroscópico, aparando a parte rota para eliminar o atrito doloroso. E quando o problema de fundo é a variância ulnar positiva sobrecarregando o TFCC, às vezes a solução mais eficaz é encurtar a ulna cirurgicamente, tirando a causa mecânica da sobrecarga em vez de só tratar o sintoma.
Quando vale considerar cirurgia
Dor que persiste depois de dois a três meses de tratamento conservador bem feito, sensação clara de instabilidade na articulação radioulnar, ou a necessidade de retomar esporte ou trabalho manual com carga total são os principais motivos para indicar cirurgia. Fora isso, dou sempre um tempo razoável ao tratamento conservador antes de propor artroscopia — boa parte dos pacientes que atendo aqui em Recife melhora sem precisar chegar à sala de cirurgia.
Perguntas frequentes
Lesão do TFCC sempre precisa de cirurgia?
Não. Boa parte responde bem ao tratamento conservador, principalmente as lesões traumáticas periféricas, que têm mais vascularização e cicatrizam com mais facilidade que as lesões centrais degenerativas.
Quanto tempo demora a recuperação depois da cirurgia?
Varia bastante conforme o tipo de procedimento. Um reparo artroscópico costuma exigir algumas semanas de imobilização seguidas de retorno gradual à carga, e a recuperação funcional completa se estende por alguns meses. Prefiro não dar um número fechado antes de examinar o paciente, porque o tipo de lesão e a profissão mudam muito esse prazo.
Como diferenciar de uma compressão do nervo no canal de Guyon?
O TFCC dói de forma mecânica, piorando com rotação do punho e apoio de carga. O canal de Guyon causa formigamento e dormência no dedo mindinho e no anelar, sem relação direta com rotação. Às vezes as duas coisas coexistem, o que exige exame clínico cuidadoso para não tratar só uma delas.
Se a ressonância vier normal, está descartada a lesão?
Não necessariamente. A ressonância tem boas taxas de acerto, mas não é perfeita, e quando a suspeita clínica continua forte mesmo com exame normal, a artroscopia diagnóstica pode ser o próximo passo.