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Lesão do ligamento escafossemilunar: a entorse de punho que não pode ser ignorada

Lesão do ligamento escafossemilunar: a entorse de punho que não pode ser ignorada

Lesão do ligamento escafossemilunar: a entorse de punho que não pode ser ignorada

A lesão do ligamento escafossemilunar é a ruptura da principal estrutura que mantém unidos dois ossos do punho, o escafoide e o semilunar. Costuma acontecer numa queda com a mão espalmada, é frequentemente tratada como uma simples entorse e, quando passa sem diagnóstico, pode levar anos depois a uma artrose do punho difícil de reverter.

No consultório, a história mais comum é a de alguém que caiu, fez um raio-X “normal” no pronto-socorro e continua com dor no dorso do punho meses depois. É sobre esse paciente que vale conversar.

O que é o ligamento escafossemilunar e por que ele importa

O punho não é uma articulação única. São oito ossos pequenos organizados em duas fileiras, e o escafoide e o semilunar ficam lado a lado na fileira mais próxima do antebraço. O ligamento escafossemilunar é a amarra entre os dois. Parece detalhe anatômico, mas é peça-chave para que o punho se mova de forma coordenada.

Quando esse ligamento rompe por completo, o escafoide tende a se inclinar para a frente e o semilunar gira para o lado oposto. Os ossos deixam de trabalhar juntos. No começo isso causa dor e sensação de punho frouxo; com o tempo, a carga passa a se concentrar em pontos errados da cartilagem e o desgaste aparece. Esse padrão de artrose tem nome próprio, SLAC (do inglês scapholunate advanced collapse), e é uma das formas mais comuns de artrose do punho.

Como essa lesão acontece

O mecanismo clássico é a queda sobre a mão estendida, com o punho dobrado para trás. Acontece no futebol, na bicicleta, no skate, escorregando no banheiro. O mesmo trauma que quebra o rádio pode, em vez disso, romper o ligamento, e às vezes faz as duas coisas ao mesmo tempo. Por isso, diante de uma fratura do rádio distal, costumo olhar com atenção o espaço entre escafoide e semilunar na radiografia.

Quais sintomas levantam a suspeita

A dor fica no dorso do punho, um pouco abaixo do centro, mais para o lado do polegar. Piora ao apoiar o peso na mão, como ao levantar da cadeira empurrando o braço, fazer flexão ou carregar sacola. Muitos pacientes descrevem um clique doloroso em certos movimentos, e alguns notam perda de força para segurar objetos.

O que mais chama atenção é a evolução. A entorse comum melhora de forma consistente em poucas semanas. Quando a dor persiste depois de seis semanas, ou melhora em repouso e volta sempre que o punho é exigido, a lesão ligamentar precisa ser descartada. A fratura do escafoide é o principal diagnóstico diferencial nesse cenário e também costuma começar como “só uma torção”. Outro que confunde é o cisto sinovial do punho pequeno, às vezes nem visível, que dói exatamente na mesma região. Se a dor fica do lado do dedo mínimo, a suspeita muda para outras estruturas, como a lesão do TFCC.

Como é feito o diagnóstico

Exame físico

A palpação localiza a dor bem em cima do intervalo entre os dois ossos. O teste de Watson, em que o examinador pressiona o escafoide enquanto movimenta o punho, pode reproduzir a dor ou provocar um ressalto. Pode ser positivo em punhos naturalmente frouxos, sem lesão, então nunca decide sozinho.

Radiografias

O raio-X simples frequentemente é normal nas lesões parciais. Nas completas, pode mostrar um afastamento maior que o normal entre escafoide e semilunar, sobretudo quando a radiografia é feita com o punho cerrado com força, incidência que aumenta a carga e abre o espaço. Comparar com o lado sadio ajuda bastante, porque existe variação entre pessoas. No perfil, a mudança dos ângulos entre os ossos sugere instabilidade já estabelecida.

Ressonância e artroscopia

A ressonância magnética mostra o ligamento e lesões associadas, e a qualidade do exame faz diferença: aparelhos de maior campo e protocolos específicos para punho enxergam bem melhor. Mesmo assim, lesões parciais podem escapar. O padrão de referência continua sendo a artroscopia de punho, que permite ver o ligamento diretamente, testar a estabilidade com um instrumento e, no mesmo tempo, tratar o que for encontrado.

Qual é o tratamento

Depende de três perguntas: a lesão é parcial ou completa? É recente ou antiga? A cartilagem ainda está preservada?

Lesões parciais

Muitas respondem ao tratamento conservador: imobilização por algumas semanas, controle da dor e, depois, fisioterapia voltada para propriocepção e fortalecimento dos músculos que ajudam a estabilizar o punho, como o flexor radial do carpo. Quando a dor persiste, a artroscopia permite limpar o tecido lesionado e, em casos selecionados, estabilizar temporariamente os ossos.

Lesões completas recentes

Aqui o tempo pesa. Nas primeiras semanas após o trauma, o ligamento ainda tem tecido de qualidade para ser reinserido no osso, geralmente com âncoras, e os ossos são fixados com fios metálicos enquanto cicatrizam. É o cenário com melhores chances de recuperar a anatomia, e é por isso que insisto tanto no diagnóstico precoce.

Lesões antigas sem artrose

Depois de alguns meses, o ligamento retrai e degenera, e o reparo direto perde eficácia. A alternativa é a reconstrução, usando parte de um tendão do próprio paciente para recriar a amarra entre os ossos. Existem várias técnicas e nenhuma é perfeita. O objetivo realista é reduzir a dor e retardar o desgaste, aceitando alguma perda de movimento.

Quando já existe artrose

Com a cartilagem comprometida, reconstruir o ligamento não resolve. Entram as cirurgias de salvamento, como a retirada da fileira proximal dos ossos do carpo ou a artrodese parcial, que funde alguns ossos para eliminar a articulação desgastada. Ambas preservam boa parte da função para o dia a dia, com perda parcial de mobilidade.

Como é a recuperação

Após reparo ou reconstrução, o punho fica imobilizado por várias semanas, em geral perto de dois meses somando gesso e órtese, e os fios são retirados nesse período. Vem então a reabilitação com terapeuta de mão, que é longa. Atividades leves voltam em poucos meses; carga pesada e esportes de impacto costumam ficar para depois de quatro a seis meses, às vezes mais. Algum grau de rigidez é comum.

Perguntas frequentes

Raio-X normal descarta a lesão?

Não. Lesões parciais, e até algumas completas, aparecem normais na radiografia simples, principalmente nas primeiras semanas. Se a dor persiste, a investigação continua com incidências específicas, ressonância ou artroscopia.

O ligamento cicatriza sozinho?

Lesões parciais frequentemente evoluem bem sem cirurgia. A ruptura completa, com os ossos já afastados, dificilmente se reorganiza sozinha, porque as forças que atravessam o punho mantêm os ossos separados.

Posso esperar para ver se melhora?

Por algumas semanas, com o punho protegido, sim. O problema é passar meses sem diagnóstico: a janela para o reparo direto é curta e, depois dela, as opções ficam mais complexas.

Vou ter artrose de qualquer jeito?

Não necessariamente. O risco é maior nas lesões completas não tratadas, e a evolução leva anos. Tratar no momento certo reduz esse risco, embora nenhuma técnica o elimine por completo.

Quando procurar avaliação

Queda com a mão espalmada seguida de dor no dorso do punho que não cede em algumas semanas merece exame de um cirurgião de mão, mesmo com raio-X normal. Se você está em Recife e se reconhece nessa situação, pode agendar uma avaliação com o Dr. André Pires, ortopedista e cirurgião da mão, pelo WhatsApp do consultório ou pela página de contato.

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